terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tem plumas e bailarinas mas não é uma revista

in DN 12/01/10

Bruno Bravo e Gonçalo Amorim encenam 'Maria Mata-os', inspirados na revista. No Teatro Maria Matos, em Lisboa, até dia 20

Há plumas e bailarinas de perna ao léu, há um compère e há piadas à actualidade, há fado e uma "atracção internacional" que muda todos os dias. É uma revista à portuguesa? "É a nossa revista", respondem os encenadores Bruno Bravo e Gonçalo. "É a revista possível. A revista que conseguimos fazer."

"A nossa intenção não é fazer uma crítica à revista", diz Bruno Bravo. "Sabemos que estamos a trabalhar sobre um preconceito", acrescenta Gonçalo Amorim. Sabem que muitas das pessoas que irão ver o seu espectáculo nunca foram à revista nem estão interessadas. Mas a sua ideia não é fazer juízos de valor. A intenção é simplesmente testar como é que um grupo de jovens criadores que, à partida, não têm nada que ver com o teatro de variedades, consegue trabalhar com aquele que é um dos mais populares géneros teatrais em Portugal. O resultado é Maria Mata-os, o espectáculo que a companhia Primeiros Sintomas estreia hoje no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

"É um espectáculo fragmentado, em quadros, e que mistura muitos estilos, tem música, tem coreografia e tem uma ligação muito directa com o público. Tudo isso são coisas que fomos buscar à revista. Assim como o facto de termos muita gente em palco, uma equipa muito grande", explica Gonçalo Amorim. Estes são os pontos de contacto com os espectáculos que eles foram ver ao Parque Mayer. Mas, depois, há as diferenças: um texto escrito por Miguel Castro Caldas e trabalhado com o grupo de actores em várias sessões de improvisação, limitações técnicas e orçamentais (típicas da produção de uma pequena companhia), um humor que se quer menos brejeiro, menos machista, mais subtil. "A comédia existe mas nós não a procurámos, não sentimos essa obrigação de fazer rir o público", diz Bruno Bravo. "Mas temos um olhar sobre a actualidade social, brincamos muito com o poder e com o próprio teatro, há uma auto-ironia, é daí que surge o humor." É preciso ir lá para ver. Até dia 20.