sábado, 28 de novembro de 2009

S. Luiz, em Lisboa, recebe o festival Lisboa Mistura

in Público 28/11/09

Já não constitui novidade. Nos últimos anos Portugal, em particular Lisboa, foi tomando consciência de que a sua paisagem humana estava a modificar-se. Está mais diversa. Começou com a emigração africana, depois a brasileira e, mais recentemente, a do Leste da Europa.

Esse panorama, em temos culturais, tem sido reflectido na actividade de uma série de agentes que se movem pelas diversas áreas criativas. Entre os eventos que têm tentado enquadrar esta realidade encontra-se o Lisboa Mistura, uma ideia e organização da associação Sons da Lusofonia, que conhece, hoje e amanhã, a sua terceira edição.

Anteontem a associação viu ser inaugurada a nova sede, que incluiu a recuperação de um novo espaço, na Rua da Rosa, no Bairro Alto, feita pelo atelier do arquitecto Francisco Aires Mateus. "Vai funcionar como sede e como front-office", explica o músico e responsável pela associação Carlos Martins, "reunindo informação sobre actividades interculturais em Lisboa, criando pontes entre criadores, da maneira menos burocrática possível".

Dois palcos
Na edição deste ano o festival decorre no espaço na sala principal e no Jardim de Inverno, no Teatro S. Luiz. É aí que se realizarão todos os espectáculos. O primeiro, hoje, pelas 16h30, será feito em família. Trata-se da One Love Family, uma orquestra de música reggae que compreende membros entre os dez e os 49 anos. De seguida, apresentar-se-ão os Mu, que tratarão de associar instrumentos da Índia, Suécia, Egipto, Brasil e Marrocos, para uma sessão de sonoridades de fusão.

Pelas 19h sobem ao palco Lula Pena, uma voz que se sente à vontade nas súplicas do fado, no lamento da bossa nova ou nos timbres de África, e os Tigrala, um trio formado pelos guitarristas Norberto Lobo e Guilherme Canhão e pelo multi-instrumentista Ian Carlos Mendoza.

A noite será cigana. Primeiro, pelas 21h, com os Ciganos d"Ouro, projecto com seis álbuns que aborda linguagens como o flamenco e o cante hondo, e depois os Dhoad Gypsies, colectivo de seis músicos, uma bailarina e um faquir, provenientes da província do Rajasthan, Índia.

Pelas 20h, haverá o lançamento do livro de fotografias Luso-Tropicália, de Tatiana Macedo, com performances dos jovens retratados na obra. O livro resulta do convite endereçado a jovens músicos de descendência africana da periferia para serem retratados no Centro de Arte Moderna. Mas, como diz o antropólogo Miguel Vale de Almeida na introdução, o resultado final redunda tanto em "retratos" como em "auto-retratos". Mais tarde, às 23h30, entram em acção os Batida, projecto que se move por sons urbanos de inspiração africana, como o kuduro, kwaito ou dancehall.

Uma oficina portátil
Amanhã, pelas 17h00, começa com um espectáculo de música, imagem e dança. Chama-se Barco N, tem encenação do russo Dmitry Bogomolov, junta elementos de Angola, Rússia e Portugal, e resulta de uma encomenda do festival. "É um trabalho original, consequência de uma residência artística" , diz Carlos Martins, "e nele questiona-se se as pessoas não estarão de costas voltadas, comunicando pouco entre si, quando a realidade nos diz que temos inevitavelmente de o fazer".

A tarde, prossegue com concertos do moçambicano André Cabaço Quinteto (18h) e da cantora cabo-verdiana Cármen Sousa (19h30). À noite, 21h30, um colectivo de cerca de 18 músicos oriundos de diversas formações (Cool Hipnoise, Terrakota ou Cacique 97) interpreta temas clássicos do afro-beat, o género musical africano popularizado pelo nigeriano Fela Kuti. Para fim de festa, há dança com sessões DJ.

Uma das novidades do festival é o projecto OPA, uma oficina portátil de artes, que terá apresentações no sábado e domingo, pelas 17h. "O projecto começou na forma de concurso aberto para jovens dos bairros da grande Lisboa, com essa ideia em mente de trazer a "periferia" até ao "centro", e depois viria a resultar num trabalho de residência artística", explica ainda Carlos Martins.

O resultado dessas residências, com músicos ou bailarinos, oriundos da periferia da cidade, será agora mostrado. O lema é "experimentar novos idiomas", diz o director da Sons da Lusofonia, e mostrá-los no centro da cidade.

"Gestores têm muito a aprender com a arte"

in JN 28/11/09

Gomes de Pinho, presidente da Fundação de Serralves, aposta em esbater divisão entre cultura e negócios

Diminuir o orçamento e manter os níveis de eficiência pode parecer uma impossibilidade, mas é precisamente essa aparente quadratura do círculo que a Fundação de Serralves, no Porto, assegura ter alcançado nos últimos cinco anos.

O orçamento é similar ao de 2004, mas não só o número de actividades tem crescido ano após ano, como a descentralização de iniciativas é agora uma realidade incontornável.

As solicitações para intervir em realidades locais específicas, como museus municipais, não cessam de crescer e, pese embora a ausência de apoio suplementar do Estado, têm obrigado mesmo a instituição a um reforço de quadros nessa área.

"Até há uns anos, éramos vistos sobretudo como um museu de arte contemporânea. Sempre achei isso muito redutor. Temos, sim, que ser contemporâneos na visão da realidade. Se nos acantonarmos na perspectiva museológica, acontece-nos o mesmo que a outros museus de arte contemporânea do início do século XX, cujas obras mais recentes datam da década de 30...", sentencia Gomes de Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves.

Para o corrente ano, a instituição viu-se obrigada a sacrificar o orçamento em 10%. No entanto, ao contrário do que é habitual nas restruturações, a dispensa de trabalhadores não foi a medida eleita. A equipa liderada por Gomes de Pinho preferiu fazer cortes cirúrgicos na gestão, procurando não interferir com o normal funcionamento do museu.

O simples ajustamento do horário de abertura ao público - nos dias da semana entre Outubro e Março - permitiu uma poupança significativa em gastos relacionados com a segurança, energia e custos com o pessoal. Também o prolongamento das exposições por mais umas semanas possibilitou uma redução de custos.

"Sem nenhum impacto em termos sociais, economizámos imenso", enfatiza o administrador.

A contenção financeira não é uma realidade estranha para quem opera no segmento das artes, já que "a cultura em Portugal sempre teve pouco dinheiro".

Gomes de Pinho lamenta mesmo o estatuto de "parente pobre" associado à criação cultural, ou não se tratasse de um mecanismo complexo que envolve "muitos actores e está sujeito a um escrutínio muito exigente, ao contrário do que se pensa".

É, aliás, em períodos recessivos como o presente que o líder de Serralves entende justificar-se um apoio suplementar nesta área. No início do ano, apresentou mesmo um pacote de medidas culturais que, assegura, gerariam um retorno muito superior, como o apoio à reconversão de espaços fabris abandonados para instalação de núcleos de empresas criativas, condições especiais no crédito ou a criação de um passe cultural nacional que permitisse acesso a instituições artísticas portuguesas.

"Nunca defendi que a cultura fosse sinónimo de desperdício, até porque os gestores têm muito a aprender com a arte. Deve ser vista como investimento. Pelo preço de um quilómetro de auto-estrada, conseguir-se-ia impulsionar o sector das artes ", adianta.

A resposta pode não ter sido a desejada - " disseram-me que esse assunto era competência do Estado", recorda -, mas nem por isso as convicções sobre "os efeitos reprodutivos imediatos da cultura" sofreram um abalo.

Embora lamente "a fraca aposta de todos os partidos políticos, sem excepção, na cultura", o empresário, que agora divide o tempo entre o Porto e Lisboa, confessa ter ficado agradado com o célebre "mea culpa" de José Sócrates, primeiro-ministro, acerca do reduzido investimento nesta área durante a primeira legislatura.

Se as previsões não se confirmarem, Gomes de Pinho assume, sem complexos, um desejo: "Com um orçamento abaixo de um limiar mínimo, incapaz de assegurar o financiamento das suas instituições, não faz sentido existir o Ministério da Cultura".

A visão do responsável máximo da Fundação de Serralves baseia-se na certeza de que "muitas das delegações e competências do Ministério da Cultura podem ser transferidas com vantagens para as instituições".

A posição extremada sobre a extinção ministerial em nada interfere com a opinião positiva que merece a nova titular da pasta, Gabriela Canavilhas, em quem Gomes de Pinho detecta méritos como "a organização, a determinação e o empenho".

Mesmo com um investimento estatal aquém do desejável, há sinais encorajadores. Além da rede de equipamentos culturais que já cobre mesmo as zonas mais remotas, Gomes de Pinho diz que "Portugal atravessa uma pujança invejável em termos criativos" em áreas como a literatura, artes plásticas, cinema ou dança.

Essa dinâmica não poderia contrastar mais com o clima de suspeição que percorre o país, de que os recentes episódios das escutas foram apenas mais um exemplo. Crítico, o administrador não tem dúvidas de que "vivemos uma crise tão profunda de convicção de valores que já ninguém sabe o que é bom e o que é mau". Por isso, confessa que "a maior preocupação actual em relação ao país não é na economia mas no plano dos valores".

Às dificuldades que confessa sentir "em explicar aos parceiros estrangeiros a situação actual de Portugal" acrescente-se também "a inexistência de consenso nacional em relação a objectivos primordiais".

No meio das dúvidas e inquietações gerais, o empresário deposita confiança adicional na figura do actual presidente da República, Cavaco Silva, cuja "visão estratégica e intenção de congregar podem favorecer um clima mais são".

Para o Porto, Gomes de Pinho guarda palavras de alento. "O espírito empreendedor das gentes do norte" deve estender-se a todos os segmentos da sociedade, por forma a que os bons exemplos floresçam. "As melhores empresas do país são do Porto, mas representam ilhas", assume o presidente da Fundação de Serralves, que afirma ter a responsabilidade de trabalhar "entre os dois mundos" que ladeiam a vizinhança da instituição: a Foz e a Boavista, por um lado, e, a poucas centenas de metros, o Bairro da Pasteleira.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Esta mulher é um 'Vulcão'

in DN 26/11/09
A actriz Custódia Gallego interpreta o monólogo 'Vulcão', de Abel Neves, na sala-estúdio do Teatro D. Maria II, em Lisboa

Em Vulcão, de Abel Neves, uma mulher revive a sua história infeliz com um marido monstruoso, a quem aprendeu a dizer sempre "sim, para não o contrariar". Sozinha em palco, a actriz Custódia Gallego dá vida a esta personagem, Valdete, que desfia as suas memórias de dor, numa encenação de João Grosso que se estreia hoje no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

"Agora, vou ser feliz", diz ela no início do monólogo, antes de iniciar a sua viagem ao passado e recordar como, quando casou, sonhava com um amor luminoso que, depois do nascimento de um filho cego, se transformou num pesadelo. Prisioneira na sua própria casa, algemada, Valdete resiste ao martírio, à violação e, sempre na esperança de poder saber onde está o seu querido filho, aceita continuar a vida junto do homem que odeia. Até que ele, alcoolizado, sofre um ataque...

O espectáculo "nasceu" de uma conversa entre Abel Neves e Custódia Gallego, há já alguns anos. "Valdete, a personagem que acabou por revelar-se nos primeiros passos de Vulcão, não tem uma vida feliz mas, apesar da infelicidade, está determinada a conquistar um apaziguamento que lhe permita reconquistar o seu supremo bem: um filho perdido", escreveu Abel Neves. "Não é que o teatro faça milagres, porque não os faz", avisa o autor. "Mas ajuda a pensar outras vidas, possíveis e melhores, e a clarear horizontes."

Um dia depois da comemoração do Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres (oficialmente decretado pela ONU em 1999) estreia-se na sala-estúdio do Teatro D. Maria II, este espectáculo. Vulcão fica em cena até 20 de Dezembro. De quarta a sábado às 21.45 e aos domingos às 16.00.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ministério da Cultura anuncia novos directores regionais

in Diário Digital 24/11/09

O Ministério da Cultura anunciou hoje os nomes dos novos titulares das suas direcções regionais, no âmbito de «uma nova orientação estratégica» e no sentido «de lhes imprimir uma nova dinâmica», segundo a nota oficial.

Pedro Pita, da direcção regional do Centro, é o único que é reconduzido, enquanto Dália Paula já havia sido anunciada para liderar direcção regional do Algarve dia 13, quando foi anunciado que o anterior titular, Gonçalo Couceiro, seria o novo director do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR).

Para a direcção regional de Cultura do Norte foi designada Paula Silva, que exercia as funções de directora dos Serviços dos Bens Culturais daquele organismo.

João Soalheiro, licenciado em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, será o novo director regional de Lisboa e Vale do Tejo.

Soalheiro exercia desde 2007 as funções de director do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, tutelado pela Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, da Conferência Episcopal Portuguesa, e era membro do Conselho Consultivo do IGESPAR.

Para a direcção regional do Alentejo foi nomeada Aurora Carapinha, professora na Universidade de Évora, onde se doutorou em Artes e Técnicas da Paisagem.

Segundo fonte do Ministério, «não está ainda marcada data de posse dos novos responsáveis».

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ermesinde: Monólogo «Elizabeth» estreia dia 21 na MITV

in Diário Digital 20/11/09

Vai estrear dia 21 de Novembro, às 23:30, o monólogo «Elizabeth», do dramaturgo francês Philippe Minyana, no âmbito da Mostra Internacional de Teatro de Valongo.
Com encenação de Luísa Ortigoso, o espectáculo vai estar em cena no Fórum de Ermesinde este sábado, segundo o divulgado em comunicado.

A protagonista, Maria Dias, explica que Elizabeth «é uma rapariga comum, com uma vida comum, pobre em acontecimentos e realizações, quase cativa de rotinas entediantes e vazias, mas que é desafiada pelo grande sonho de ser Miss».

O espectáculo é extraído da peça de teatro «Chambres», de Minyana.