sábado, 16 de janeiro de 2010

Dois olhares sobre o mesmo Schubert no CCB e Gulbenkian

in DN 16/01/10

Ciclo de canções 'Viagem de Inverno' junta Maria João Pires e Rufus Müller em Belém

Maria João Pires está de regresso ao CCB. Logo, às 21.00, no Grande Auditório, a pianista será a acompanhadora do tenor Rufus Müller na interpretação do ciclo de canções (em alemão, Lieder) Viagem de Inverno (Winterreise, no original), do compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828).

Schubert sempre foi um dos compositores pelos quais Maria João Pires demonstrou ter mais afinidades electivas, tendo dedicado vários discos à sua obra para piano solo ou para piano a quatro mãos. A arte de pianista-acompanhadora tem-na ela aperfeiçoado ao longo dos últimos anos e o conhecimento entretanto travado com o tenor anglo-germânico Rufus Müller foi um catalisador dessa recente faceta da sua actividade concertística.

O ciclo Winterreise é uma das obras-primas absolutas da história da música ocidental. Foi composto em dois jactos no decurso do ano de 1827, correspondendo à edição separada dos poemas originais de Wilhelm Müller (1794- -1827), jovem poeta que motivara já alguns anos antes (1823) Schubert a escrever o seu primeiro ciclo de Lieder, intitulado A Bela Moleira. Integram esta Viagem de Inverno um total de 24 Lieder, os poemas relatando a deambulação solitária do narrador (o Eu poético) por uma paisagem desolada, invernosa (a paisagem física sendo, como é típico do Romantismo, uma transposição da paisagem psíquica), errância essa motivada por um desgosto amoroso (canção 1, Gute Nacht). Até ao final (a interpretação do ciclo completo dura cerca de 80 minutos), acentuar-se-ão o isolamento e alienação do protagonista, o qual encontrará só num tocador de realejo (Der Leiermann, canção conclusiva) uma precária, quase alucinada identificação (na solidão, marginalização, indiferença a que são ambos votados). Esse final, aberto, motivou muitas interpretações, havendo quem veja no Leiermann uma personificação da morte. Hoje poderá também fazer a sua...

Um dos intérpretes que precisamente se opõem a essa leitura é o tenor alemão Christoph Prégardien, que amanhã, às 19.00, no Grande Auditório da Gulbenkian, interpreta... a Viagem de Inverno. Mas não exactamente a mesma obra. Trata-se antes da "interpretação composta, para tenor e pequena orquestra", da autoria do compositor e maestro Hans Zender (Wiesbaden, 1936). Estreada em Frankfurt, em Setembro de 1993, ouviu-se pela primeira vez em Portugal a 28 de Junho de 2003 no quadro do Festival em Obra Aberta (estaleiro da Casa da Música) pelo mesmo Remix Ensemble que amanhã pisará o palco da Gulbenkian (25 músicos, no total) com Prégardien. Dirige Peter Rundel, titular do agrupamento.

Mas ainda não é tudo com respeito à Viagem de Inverno ! O ciclo regressará a Lisboa, na sua forma autêntica, a 16 de Maio. Nessa data, o Grande Auditório da Fundação Gulbenkian recebe um dos grandes "schubertianos" da última década: o barítono alemão Matthias Goerne, tendo ao piano o francês Pierre-Laurent Aimard.