quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Estreia da Peça "Elizabeth e as Águas Verdes do Pacífico"


in Literatura Very Light por Nuno Gervásio

Foi ontem a antestreia da peça “Elizabeth e as Águas Verdes do Pacífico” no Instituto Franco-Português. Só hoje respiro mais fundo. Só agora, depois do stress e da adrenalina consigo dizer umas palavras sobre esta peça e o meu papel nela.

Tudo partiu de um honroso convite da nova companhia Royal Teatro Livre por iniciativa da minha querida amiga e actriz Maria Eduarda Dias, que acreditou que eu seria capaz de pegar no texto do autor francês Philippe Minyana e escrever esta peça. Uma peça de um puzzle de duas peças que se entrelaçam e completam. O desafio foi criar as pontes entre a personagem da mãe (Debora) que existia apenas na voz da filha (Elizabeth) e dar-lhe o corpo, a existência que faltava. São os sonhos e ambições (falhadas) na vida na mãe e os sonhos e ambições da filha o que as une. É o desejo se ser algo mais do que aquilo que se é, é a liberdade e necessidade de evasão que atravessa as suas vidas, que se cruzam anseios e frustrações, e que no fundo acabam por ser o espelho uma da outra. E foram estas hiperligações de sentimentos e esperanças que me pediram que encaixasse, que desse coesão na linguagem e na abordagem e que no final o ciclo se completasse. Não sei se o consegui na plenitude, espero que tenham a curiosidade de assistir à peça e a ousadia de me transmitirem a vosso percepção. Seja ela qual for.

Esta foi a minha primeira experiência de escrita mais densa e mais a sério para teatro. Fiquei com o bichinho da escrita para palco e com vontade de voltar a ele rapidamente. O teatro tem uma amplitude mágica que não tem equivalente em mais nenhuma arte. Se pensarmos bem aquilo que agora se começa fazer em cinema, a grande moda dos filmes em 3D, não é mais do que aquilo que no teatro já se faz há centenas e centenas de anos. Ah, pois é.

Para terminar, tenho de deixar aqui os meus parabéns e agradecimentos à encenadora Luísa Ortigoso que fez um trabalho maravilhoso e que ajudou a Maria a encontrar a voz da Debora dentro de si.

E claro, louvar a Maria Eduarda Dias pelo seu magnífico trabalho, pelo(s) desempenho(s) brilhante(s), pela forma como valorizou, acrescentou e deu vida às palavras que apenas pus no papel. E sobretudo acarinhá-la pela coragem e pela força para carregar com estas duas mulheres às costas nos últimos tempos. A avaliar pela monumental transfiguração da Maria (que até levou algumas pessoas a pensar que era outra actriz), carregar com o peso da Débora não pode ser tarefa fácil.


Elizabeth e As Águas Verdes do Pacífico

De 9 a 21 de Fevereiro / 4ª a sábado / 21h30 / Instituto Franco-Português


Ficha Artística:

Encenação: Luísa Ortigoso
Interpretação: Maria Eduarda Dias
Tradução e adaptação: Maria Eduarda Dias
Autores: Philippe Minyana e Nuno Gervásio
Desenho de Luz: Vasco Letria
Figurinos: Ana Brum
Produção: Royal Teatro Livre

Dia 11 de Fevereiro, 10% das receitas revertem a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro
Dia 13 de Fevereiro, 10% das receitas revertem a favor da Associação Amigas do Peito
Dia 20 de Fevereiro, 10% das receitas revertem a favor da Aministia Internacional - Direitos das Mulheres.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Companhias e criadores unem-se contra “falta de política cultural municipal” no Porto

in Público 08/02/10

Pelo menos 15 companhias e criadores da área do teatro, dança e cinema do Porto decidiram alugar uma sala para apresentar espectáculos regularmente, numa resposta à falta de “uma política cultural municipal”.

“Há um desinvestimento muito grande da Câmara do Porto nas infraestruturas da cidade, em salas médias, para companhias que ainda se estão a afirmar ou que não são subsidiadas”, observou, em declarações à Lusa, Ivo Bastos, da companhia de teatro Palmilha Dentada, um dos mentores da ideia.

Assim, o movimento, que reúne várias companhias e artistas em nome individual e que recebeu a designação de “Variação da Cultura”, alugou a Sala - Estúdio Latino, do Teatro Sá da Bandeira onde, a partir de quinta-feira, começa a apresentar uma programação “continuada e diversificada”.

O aluguer é, para já, apenas por seis meses, porque foi esse o período para o qual foi possível “assegurar a programação”, mas também porque o projecto terá de passar por um “período de experimentação”, embora a vontade seja “para continuar”, refere Ivo Bastos.

“Queremos mostrar que esta cidade merece um tratamento um bocadinho melhor do que está a ter, ao nível da cultura, porque desapareceu a intenção de fazer cultura na cidade”, observa.

Em comunicado enviado à Lusa, o colectivo “Variação da Cultura” considera “insustentável” que, numa cidade com quatro escolas de teatro, não exista “capacidade de acolhimento aos jovens grupos que naturalmente se vão formando”.

O grupo refere, ainda, que “numa cidade que se pretende cosmopolita e dinâmica, é incompreensível não existirem infraestruturas capazes de acolher projectos de média dimensão, com as valências técnicas necessárias a um bom acolhimento de público”.

Nos próximos meses, as noites de quarta a domingo da Sala - Estúdio Latino vão ser ocupadas com espectáculos de teatro: quinta-feira é o dia um da programação, que começa com a reposição de “Norma”, da Palmilha Dentada. Está, ainda, prevista, a estreia de “O Escadote”, da companhia Tenda de Saias, de “Não”, de Hélder Guimarães e de “Rädda”, do colectivo Segunda Vez.

A programação inclui, também, as reposições de “Noites Brancas”, da companhia Chão Concreto e de “Confissões de um Carrasco Na Hora de ir para a Cama”, do Mau Artista.

As tardes serão ocupadas com espectáculos para crianças (durante a semana para escolas, e aos sábados e domingos para o público em geral). Já agendadas estão as peças “Xata”, da Tenda de Saias, “João Sem Medo”, da Confraria das Estórias, “Gil Vicente”, do Mau Artista, e “Caça Palavras”, do Teatro do Frio.

As terças-feiras, de Março a Maio, vão ser dedicadas a ciclos temáticos (de cinema ou dança), seguidos de conversas.

A organização estima que, ao longo dos seis meses da programação, “serão realizadas 220 sessões de 24 programas de 15 companhias e criadores diferentes, envolvendo 87 profissionais do espectáculo”, esperando “15 mil espectadores”.

Vera Castro, autora de imagens fortes

in Público 08/02/10

Na dança, no teatro, nas artes plásticas, na ópera – e nos figurinos, nos cenários, na pintura. Vera Castro, que morreu na madrugada de hoje de doença oncológica aos 63 anos, tocou várias disciplinas e leccionou na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC). A artista evoca sentimentos fortes, da “inveja” amigável ao “peso” de fatos e recordações de perda.

De Olga Roriz a Ricardo Pais, passando por João Lourenço, José Wallenstein, Né Barros, Jorge Listopad, Filipe La Féria, Cucha Carvalheiro ou Rui Lopes Graça, Vera Castro trabalhou com os mais conhecidos encenadores, coreógrafos e compositores na cenografia e figurinos. Em 1993, o seu trabalho na peça "Estrelas da Manhã" mereceu-lhe o Prémio da Crítica de Cenografia.

“Com pena minha só trabalhou comigo como figurinista e não como cenógrafa”, confessa Ricardo Pais ao PÚBLICO, no Teatro D. Maria II e no Teatro Nacional São Carlos. Gostou de trabalhar com alguém fácil no trato e com um gosto próximo do seu. E lembra: “Sempre me fez inveja o trabalho que fez para a Olga Roriz. Os figurinos de "Isolda" [1990, Ballet Gulbenkian, em memória de Madalena de Azeredo Perdigão] são inesquecíveis”. “A amizade que nos uniu desde o primeiro dia de regresso a Portugal após o 25 de Abril é tão grande quanto a admiração que tenho hoje por ela”, rematou o encenador.

Hoje, o Ministério da Cultura manifestou a sua “maior consternação pelo falecimento da artista plástica Vera Castro, cuja actividade criativa foi amplamente reconhecida pelos mais prestigiados profissionais na área da dança, do teatro e da ópera em Portugal”, destacando a sua actividade na docência, “no âmbito da qual muito contribuiu para a qualificação de novos profissionais das artes”.

Olga Roriz, amiga de Vera Castro há cerca de três décadas, sente ainda o peso dos figurinos de "Isolda". “Foi o nosso momento de união profissional, foram aqueles belíssimos fatos – ainda hoje me falam ‘daquela peça com os fatos vermelhos’”, recorda a coreógrafa. Sendo sobretudo figurinista de teatro, Vera Castro vestiu Isolda de forma “mais preciosa”, comenta Olga Roriz. A peça regressou na temporada 2008/9, desta feita ao Teatro Camões, pela mão da Companhia Nacional de Bailado, e para isso a coreógrafa andou, com Vera Castro, à procura dos fatos desaparecidos e a recolher outros para os repôr em cena. “Se tivesse trabalhado com outro figurinista, ir retirar o peso dos fatos, a dificuldade que era dançar com eles. Pesavam quilos, eram uma sensação de segunda pele e uma mais-valia à coreografia. Eram quase armaduras, dancei com eles e impunham-se na coreografia e na personagem”, enfatiza.

Reformada desde 2007 da ESTC, que ontem assinalava a “grande perda para a cultura em Portugal” que representa a morte de Vera Castro, a profissional esteve internada no Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, durante uma semana. Vera Castro nasceu em Angola em 1946 e desenvolveu também trabalho como pintora – o seu trabalho está na colecção do Ministério da Cultura e em colecções particulares, tendo exposto, entre outros espaços culturais, na Casa da Cerca, em Almada (2002), e na Galeria do Teatro Municipal de Almada (2007).

O funeral de Vera Castro sai amanhã da Basílica da Estrela o Alto de São João, onde o corpo será cremado pelas 11h.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Teatro Nacional São João sofre cortes programáticos

in Diário Digital 07/02/10

Cortes na programação e suspensão da internacionalização do Teatro Nacional São João são algumas das consequências resultantes do valor da indemnização compensatória prevista no Orçamento do Estado para 2010, alertou a presidente do conselho de administração.
Francisca Carneiro Fernandes disse à Lusa que apesar de ter «esperança» que esta questão da indemnização compensatória se subverta, tudo indica que aquilo que o Teatro Nacional São João (TNSJ) irá receber pelo Orçamento do Estado para 2010 seja igual ao valor do ano passado (que já se repete desde 2007): 4,9 milhões de euros.

«Isto representa estar a gerir e a programar numa situação de subfinanciamento completo, ou seja, o montante de orçamento - a que acrescem as receitas próprias que conseguimos angariar e o mecenato - não é suficiente para as despesas mínimas e para o serviço público que gostaríamos e estamos obrigados a prestar», explicou a presidente do conselho de administração.

O facto do TNSJ ter acolhido, ao longo dos anos, mais estruturas - neste momento são quatro edifícios, entre os quais o próprio São João, o Teatro Carlos Alberto, o Mosteiro de São Bento da Vitória e um quarto espaço para adereços e figurinos - e ter um valor de orçamento equivalente àquele que tinha quando era apenas uma casa faz com «haja bastante menos dinheiro para programar e para promover o que se está a programar».

«Não há cortes, o que não há é o crescimento do orçamento correspondente ao crescimento de estruturas e ao mérito que eu acho que é reconhecido relativamente a nós», afirmou a responsável.

Para Francisca Carneiro Fernandes os cortes programáticos que o director artístico, Nuno Carinhas, se viu obrigado a fazer e o facto da internacionalização estar praticamente cancelada, «é um retrocesso sério, que tem consequências sérias», não sabendo a responsável se depois será possível «recuperar os passos para trás».

Novo projecto quer aliar cultura e turismo em Lisboa

in Diário Digital 07/02/10

A criação de um plano estratégico que alie a cultura e o turismo, com a participação ativa de museus, monumentos e outros espaços culturais, é o objetivo de um projeto que vai ser apresentado terça feira, em Lisboa.
Iniciativa conjunta do comité português do Conselho Internacional de Museus (ICOM PT), Museu Colecção Berardo e a INDUSCRIA_Plataforma Para a Indústrias Criativas, o encontro, que decorrerá a 09 de fevereiro no Museu Colecção Berardo, é composto por uma reunião de trabalho e uma conferência aberta ao público.

A génese desta iniciativa deu-se no ano passado, quando, em maio, diretores de vários museus e monumentos da zona de Belém/Ajuda, se reuniram para discutir os problemas e soluções daquelas instituições, com o objetivo último de trabalhar e desenvolver iniciativas em rede.

Luís Serpa, o mentor da Plataforma Para as Indústrias Criativas, que acompanhou o encontro dos diretores do Museu Berardo, Museu da Electricidade, Museu dos Coches, Mosteiro dos Jerónimos e Museu de Arqueologia, entre outros, disse à Lusa que apresentou então uma proposta para estender a ideia a outras áreas de Lisboa.

«A ideia é considerar Belém/Ajuda como um projeto âncora mas, ao mesmo tempo, criar um itinerário mais amplo, num eixo que vá de Algés até ao Terreiro do Paço, e se prolongue até ao Parque das Nações, e até incluir outros percursos», neste novo mapa da cidade, idealizado para juntar sinergias da cultura e do turismo.

Luís Serpa ressalvou que o processo em curso «não é para criar um plano de ação, mas dar um contributo às entidades oficiais, tendo em conta os vários planos estratégicos já existentes», nomeadamente o recente plano para o sector dos museus nacionais apresentado pelo Ministério da Cultura.

Na opinião do responsável, «na relação entre museus e indústrias criativas continua a haver uma tensão entre tradição e inovação. Os museus têm os conteúdos, mas estão um bocado passivos, e poderiam ser mais ativos».