sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os universos de Marguerite Duras encenados por Solveig Nordlund

'La Musica', uma peça feita de silêncios, em que o teatro e o cinema se fundem.

A escritora, que durante anos viveu entre a paixão de uns e o antagonismo de outros, criadora de uma obra em que a literatura, o cinema e o teatro perdem os contornos, se fundem e criam um universo artístico singular, regressa aos palcos pela mão da realizadora e encenadora Solveig Nordlund.

A peça de teatro La Musica, escrita por Duras em 1965, estreia hoje no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e é apenas um dos vários eventos que, nas próximas semanas, vão trazer de volta a multifacetada obra desta autora francesa, falecida em 1996.

O Instituto Franco-Português iniciou no dia 18 um ciclo dedicado aos filmes que foram feitos a partir da obra da escritora e, na Cinemateca,realiza-se, a partir de amanhã, a primeira retrospectiva integral da obra fílmica de Duras, num ciclo que se estende ao longo do mês de Fevereiro.

A escritora, cineasta, encenadora Marguerite Duras viveu e criou sempre de uma forma transgressora, entre o real e o fictício, jogando com as múltiplas máscaras que criou para si mesma e que replicava na sua obra, o que, para a encenadora sueca, explica o" fascínio e as paixões que ela hoje ainda desperta".

"Há um pequeno documentário que fiz sobre ela há 15 anos que está a circular no YouTube e tem centenas de visitas diárias A quantidade de pessoas que vai ver o vídeo e o comenta espantou-me e fez-me pensar de novo na obra dela; daí ter proposto ao CCB a encenação desta peça", explica Nordlund.

La Musica conta-nos a história de um casal que se reencontra depois de anos de separação e inicia um diálogo que é sobretudo uma rememoração do passado, em que ambos tentam compreender as razões da ruptura e os laços que ainda os unem.

Carla Maciel e Manuel Wiborg dão corpo a duas personagens fantasmáticas, das quais se desprendem mais silêncios que palavras. Um piano acompanha a dança lenta e melancólica daquele reencontro.

Trabalhar sobre a escrita elíptica de Duras foi o mais "difícil", afirma Solveig Nordlund e Manuel Wiborg."Chegar à essência do que querem dizer esses silêncios foi o mais difícil, mas é a única forma de nos apropriarmos do texto e o podermos representar", diz o actor.

O modo como Duras funde o texto com o cinema e o teatro está presente na dramaturgia criada por Nordlund. "Fizemos a peça como se fosse um filme, como se fosse uma colagem de frames", explica.

Também a actriz Carla Maciel conta que a sua grande referência para criar a personagem foi o filme de Wong Kar-Wai, Disponível para Amar: "A contenção da mulher no filme, as manifestações silenciosas do seu mundo interior foram a minha principal inspiração."

É impossível entrar no labirinto de Marguerite Duras "sem passar pelo cinema", conclui Solveig Nordlund.