sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Maria João Seixas promete honrar legado de Bénard da Costa com "uma marca nova"

in Público 21/01/10

Reafirmando a sua surpresa pelo convite recebido da ministra da Cultura, Maria João Seixas tomou ontem posse como directora da Cinemateca Portuguesa numa sessão solene realizada no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa.


A jornalista avançou poucos projectos concretos quanto ao que será a sua actuação no cargo, à excepção do estabelecimento de uma Cinemateca no Porto — “saibamos levar ao Porto e ao país as melhores imagens do cinema”, afirmou —, deixando claro que esse é um desejo da tutela. A seguir, a ministra Gabriela Canavilhas anunciaria a abertura da Cinemateca portuense até ao final no ano na Casa das Artes, onde as obras estão a decorrer para receber o novo equipamento.

Trata-se de uma intenção que já tinha sido exprimida pelo antecessor de Gabriela Canavilhas, José António Pinto Ribeiro, na sequência de uma petição levada a cabo por um grupo de estudantes universitários do Porto em 2008. Na altura, o ex-director da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, opôs-se à criação de um pólo no Porto.

“Lisboa não pode ser o único espaço nacional onde as políticas de exibição de cinema não-comercial se desenvolvam”, disse ontem a ministra da Cultura, apontando a abertura de uma Cinemateca no Porto como prioridade. Em declarações ao PÚBLICO, Gabriela Canavilhas esclareceu que não se tratará de um pólo, mas de uma “Cinemateca do Porto”, o que implicará alterações na actual lei orgânica da instituição, que só contempla a Cinemateca de Lisboa.

Tanto a ministra quanto a nova directora da Cinemateca Portuguesa evocaram João Bénard da Costa nos seus discursos. Maria João Seixas afirmou que pretende “honrar o legado de João Bénard da Costa com uma marca nova — que terá sempre de ser nova”. Na cerimónia, que contou com a presença de vários funcionários da Cinemateca, bem como do subdirector Pedro Mexia, disse estar consciente do “grande legado e desafio enorme de poder seguir os passos que Bénard da Costa tão bem marcou”.

Mas referiu que “é com muito entusiasmo” que entra na Cinemateca.

A assistir estavam também os realizadores Fernando Lopes e José Fonseca e Costa, bem como o anterior ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, que, ao PÚBLICO, disse “confiar muito” em Maria João Seixas, acrescentando que “é uma extraordinária oportunidade para ela e para a Cinemateca”. “É uma pessoa que tem a justa medida de continuidade e de reforma”, justificou. Pinto Ribeiro não quis comentar o facto de não ter nomeado uma nova direcção para a Cinemateca durante a sua tutela, situação que durou cerca de um ano. Gabriela Canavilhas, por seu lado, justificou o impasse com o facto de 2009 ter sido um ano de eleições, e de mudança do Governo. A ministra sublinhou a actuação de Maria João Seixas no domínio da “intervenção cívica” e “defesa da causa pública”, mas também a apontou como “uma mulher do cinema”, afirmando aos jornalistas que ela “poderá ter um cunho muito característico” à frente da Cinemateca. “Só podia ser alguém com um perfil tão forte”, disse, acrescentando ao PÚBLICO que “toda a gente, unanimemente, acha que Maria João Seixas é a melhor escolha”.

No seu discurso, a ministra prometeu também resolver em breve o “impasse” que se verifica no Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual (FICA), criado durante a tutela de Isabel Pires de Lima, em 2007, e comparticipado pelo Estado, PT Multimédia e pelos três canais de televisão. Reconhecendo que o financiamento do sector está paralisado desde o princípio de 2009 – por falta de liquidez e pela gestão deficiente do fundo – Canavilhas adiantou que os “próximos passos vão ser no sentido de reavaliar a regulamentação aplicável e reapreciar o envolvimento de novos parceiros”. Ou seja, o financiamento do cinema prepara-se, mais uma vez, para mudar de regras.