in JN 23/01/19
Festival Internacional de Cinema do Porto assinala, este ano,o 30.º aniversário, mas os seus responsáveis garantem que para a longevidade tem sido necessária muita luta e "muitos milagres"
A persistência e a paixão pelo cinema fazem com que, ano a ano, edição a edição, Beatriz Pacheco Pereira e Mário Dorminsky trabalhem e lutem para que o Fantasporto seja uma realidade na cidade do Porto.
É assim que tem vivido, ou sobrevivido, o festival, que, neste ano, comemora três décadas de existência. A edição 2010 arranca a 22 de Fevereiro e vai exibir cerca de 350 filmes, dos quais 240 em estreia absoluta em Portugal.
Beatriz Pacheco Pereira e Mário Dorminsky consideram que continuar a fazer o festival no Porto é uma teimosia pelo amor à cidade e adiantam estar convencidos de que, se tivessem ido para Lisboa, seriam considerados, "como já lá fora, um dos maiores festivais e que teriam outros apoios".
A dupla reconhece, portanto, que o evento "é mais respeitado a nível internacional do que nacional", o que, contudo, não impede que a adesão do público cresça de ano para ano. Para a próxima edição, são esperados cerca de 100 mil visitantes.
Festival elogiado na "Variety"
Apesar de funcionar, garantem os organizadores, com poucos apoios, comparando com outros festivais portugueses, o Fantasporto é considerado, por exemplo, pela "Variety" - revista norte-americana de espectáculos - "um dos melhores festivais do Mundo". Para Beatriz Pacheco Pereira, esta classificação justifica-se, sobretudo, "pela qualidade da programação em competição" e, também, por terem "a intuição da descoberta de novos nomes, tendo a ousadia de apresentar as primeiras obras de Andrei Tarkovsky, Brian de Palma, Bigas Luna e Ridley Scott, entre outros.
A fundadora e directora do Fantasporto realçou, ainda, o facto de o festival ter também descoberto, logo no início das carreiras, Pedro Almodóvar, Sam Raimi, Leos Carax, Peter Jackson, Marc Caro, Quentin Tarantino, David Lynch e David Cronenberg.
Por outro lado, Beatriz Pacheco Pereira lembra que o Fantasporto é "o primeiro festival do Mundo a fazer o cruzamento com o conhecimento em áreas correlativas ao cinema. Em 2009, falou--se de arquitectura; neste ano, vão estar cientistas à solta nos programas de robótica e efeitos especiais".
Falta de apoios institucionais
Na opinião de Mário Dorminsky, o festival foi sempre, de uma maneira geral, marginalizado, considerando que nunca lhe foi atribuída a devida importância. Dorminsky queixa-se dos insuficientes apoios que tem do Estado, do Instituto de Turismo de Portugal e da autarquia portuense. "Temos que admitir que o 'Fantas' é, apesar de já ter 30 anos e ter provas dadas no terreno, um evento que continua a ser muito maltratado", sublinhou.
Realçando o apoio obtido ao longo dos anos pelas empresas privadas, o organizador e director do Fantasporto queixa-se que, nos últimos dois anos, por questões orçamentais, elas foram obrigadas a cortar os contributos. "Algumas, só por simpatia, acederam apoiar, mas reduziram significativamente os apoios, o que, naturalmente, complica", assegurou.
No entanto, Mário Dorminsky garante que nem por isso a programação da edição deste ano será reduzida e que o festival não deixará de ter a importância que tem tido. "Enfrentámos uma burocracia muito grande, mas a experiência obriga-nos a uma gestão tão rigorosa, que, às vezes, até parece que fazemos milagres. Por isso, apesar de o orçamento ter sido reduzido em 25% em relação a 2009, ninguém vai dar por isso e o 'Fantas' será, mais uma vez, um grande acontecimento".
Por outro lado, Dorminsky não deixa de confessar "estar farto da política da mão estendida" e considera que os apoios do Estado são ridículos", sobretudo, acrescenta Beatriz Pacheco Pereira, tendo em conta "as verbas que são atribuídas aos festivais que se fazem a Sul e que não têm o historial e a projecção" do Fantasporto.
Assumindo que o festival presta "serviço público", Dorminsky entende que se, na prática, "é para tomar a sério que querem fazer de Portugal um país com imagem, então, deveriam apoiar ainda mais o 'Fantas', que é, toda gente sabe, um evento mundialmente prestigiado e reconhecido".
O cinéfilo avisa que, para a obtenção de bons resultados, "não chegam medalhas nem palmadinhas nas costas", mas, sim, "meios e apoios suficientes".
Mário Dorminsky compara, por exemplo, os actuais apoios da Câmara Municipal do Porto, "que atribui cerca de 30 mil euros em serviços, aos da autarquia de Lisboa, que dá 300 mil euros ao festival que se faz na capital".
Apesar disso, Dorminsky garante que não pretendem sair do Porto: "Se quiséssemos, já estávamos em Lisboa há muito tempo". E admite que "o Teatro Rivoli continua a ser a sede do Fantasporto".
Aventura do "Fantas" nasceu no café Luso
A aventura do Fantasporto nasceu em 1980, numa conversa rotineira à mesa do café Luso, no Porto, na altura, ponto de encontro de várias personalidades ligadas à cultura. Na mesa, estava Mário Dorminsky, Beatriz Pacheco Pereira e o pintor José Manuel Pereira, já falecido. Os dois primeiros, já entusiasmados com o cinema, queriam mostrar filmes e o pintor queria, naturalmente, mostrar quadros. Conversa puxa conversa, senta-se mais uma pessoa na mesa, o actor António Reis, e surge, então, a ideia de fazer um festival de cinema fantástico. O projecto desenvolveu-se e depressa se tornaria realidade, com a exibição de várias sessões por dia, a realização de retrospectivas e, ainda, paralelamente, a promoção de concertos e de exposições de artes plásticas. Na época, foi atribuído um subsídio de 15 contos (75 euros) pelo Instituto Português de Cinema.
Festival Internacional de Cinema do Porto assinala, este ano,o 30.º aniversário, mas os seus responsáveis garantem que para a longevidade tem sido necessária muita luta e "muitos milagres"
A persistência e a paixão pelo cinema fazem com que, ano a ano, edição a edição, Beatriz Pacheco Pereira e Mário Dorminsky trabalhem e lutem para que o Fantasporto seja uma realidade na cidade do Porto.
É assim que tem vivido, ou sobrevivido, o festival, que, neste ano, comemora três décadas de existência. A edição 2010 arranca a 22 de Fevereiro e vai exibir cerca de 350 filmes, dos quais 240 em estreia absoluta em Portugal.
Beatriz Pacheco Pereira e Mário Dorminsky consideram que continuar a fazer o festival no Porto é uma teimosia pelo amor à cidade e adiantam estar convencidos de que, se tivessem ido para Lisboa, seriam considerados, "como já lá fora, um dos maiores festivais e que teriam outros apoios".
A dupla reconhece, portanto, que o evento "é mais respeitado a nível internacional do que nacional", o que, contudo, não impede que a adesão do público cresça de ano para ano. Para a próxima edição, são esperados cerca de 100 mil visitantes.
Festival elogiado na "Variety"
Apesar de funcionar, garantem os organizadores, com poucos apoios, comparando com outros festivais portugueses, o Fantasporto é considerado, por exemplo, pela "Variety" - revista norte-americana de espectáculos - "um dos melhores festivais do Mundo". Para Beatriz Pacheco Pereira, esta classificação justifica-se, sobretudo, "pela qualidade da programação em competição" e, também, por terem "a intuição da descoberta de novos nomes, tendo a ousadia de apresentar as primeiras obras de Andrei Tarkovsky, Brian de Palma, Bigas Luna e Ridley Scott, entre outros.
A fundadora e directora do Fantasporto realçou, ainda, o facto de o festival ter também descoberto, logo no início das carreiras, Pedro Almodóvar, Sam Raimi, Leos Carax, Peter Jackson, Marc Caro, Quentin Tarantino, David Lynch e David Cronenberg.
Por outro lado, Beatriz Pacheco Pereira lembra que o Fantasporto é "o primeiro festival do Mundo a fazer o cruzamento com o conhecimento em áreas correlativas ao cinema. Em 2009, falou--se de arquitectura; neste ano, vão estar cientistas à solta nos programas de robótica e efeitos especiais".
Falta de apoios institucionais
Na opinião de Mário Dorminsky, o festival foi sempre, de uma maneira geral, marginalizado, considerando que nunca lhe foi atribuída a devida importância. Dorminsky queixa-se dos insuficientes apoios que tem do Estado, do Instituto de Turismo de Portugal e da autarquia portuense. "Temos que admitir que o 'Fantas' é, apesar de já ter 30 anos e ter provas dadas no terreno, um evento que continua a ser muito maltratado", sublinhou.
Realçando o apoio obtido ao longo dos anos pelas empresas privadas, o organizador e director do Fantasporto queixa-se que, nos últimos dois anos, por questões orçamentais, elas foram obrigadas a cortar os contributos. "Algumas, só por simpatia, acederam apoiar, mas reduziram significativamente os apoios, o que, naturalmente, complica", assegurou.
No entanto, Mário Dorminsky garante que nem por isso a programação da edição deste ano será reduzida e que o festival não deixará de ter a importância que tem tido. "Enfrentámos uma burocracia muito grande, mas a experiência obriga-nos a uma gestão tão rigorosa, que, às vezes, até parece que fazemos milagres. Por isso, apesar de o orçamento ter sido reduzido em 25% em relação a 2009, ninguém vai dar por isso e o 'Fantas' será, mais uma vez, um grande acontecimento".
Por outro lado, Dorminsky não deixa de confessar "estar farto da política da mão estendida" e considera que os apoios do Estado são ridículos", sobretudo, acrescenta Beatriz Pacheco Pereira, tendo em conta "as verbas que são atribuídas aos festivais que se fazem a Sul e que não têm o historial e a projecção" do Fantasporto.
Assumindo que o festival presta "serviço público", Dorminsky entende que se, na prática, "é para tomar a sério que querem fazer de Portugal um país com imagem, então, deveriam apoiar ainda mais o 'Fantas', que é, toda gente sabe, um evento mundialmente prestigiado e reconhecido".
O cinéfilo avisa que, para a obtenção de bons resultados, "não chegam medalhas nem palmadinhas nas costas", mas, sim, "meios e apoios suficientes".
Mário Dorminsky compara, por exemplo, os actuais apoios da Câmara Municipal do Porto, "que atribui cerca de 30 mil euros em serviços, aos da autarquia de Lisboa, que dá 300 mil euros ao festival que se faz na capital".
Apesar disso, Dorminsky garante que não pretendem sair do Porto: "Se quiséssemos, já estávamos em Lisboa há muito tempo". E admite que "o Teatro Rivoli continua a ser a sede do Fantasporto".
Aventura do "Fantas" nasceu no café Luso
A aventura do Fantasporto nasceu em 1980, numa conversa rotineira à mesa do café Luso, no Porto, na altura, ponto de encontro de várias personalidades ligadas à cultura. Na mesa, estava Mário Dorminsky, Beatriz Pacheco Pereira e o pintor José Manuel Pereira, já falecido. Os dois primeiros, já entusiasmados com o cinema, queriam mostrar filmes e o pintor queria, naturalmente, mostrar quadros. Conversa puxa conversa, senta-se mais uma pessoa na mesa, o actor António Reis, e surge, então, a ideia de fazer um festival de cinema fantástico. O projecto desenvolveu-se e depressa se tornaria realidade, com a exibição de várias sessões por dia, a realização de retrospectivas e, ainda, paralelamente, a promoção de concertos e de exposições de artes plásticas. Na época, foi atribuído um subsídio de 15 contos (75 euros) pelo Instituto Português de Cinema.