quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

'A Mãe' de Gorki/Brecht na versão de Benite

in DN 07/01/10

Teatro de Almada apresenta uma das mais polémicas peças de Brecht. Encenador quer mostrar texto para lá do quadro ideológico.

A figura materna é um dos símbolos fundadores da cultura humana. Das Vénus paleolíticas até à virgem Maria, o corpo fecundo sempre se prestou a ser uma metáfora do porvir e da salvação. E se o cristianismo a sacraliza como a mãe de Cristo, Brecht sacraliza-a como a mãe da revolução.

O famoso texto brechtiano sobe à cena hoje, pelas 21.30 no Teatro Municipal de Almada, com Joaquim Benite a dirigir um elenco de 18 actores, com destaque para Teresa Gafeira no papel de Pelagea Vlassova, a mãe.

Adaptada da obra homónima do escritor russo Maximo Gorki, a peça, recriada em 1931 pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht, conta-nos a história da transformação da consciência de uma mulher, desde a estagnação auto-satisfeita até ao ímpeto e à fúria revolucionária consequentes da aprendizagem, do confronto com o mundo e com a morte do filho.

Joaquim Benite confessa que "desejava há muito tempo encenar esta peça", que considera ser "pouco divulgada e pouco representada" .

"É um equívoco persistir na leitura dos textos de Brecht dentro de um quadro ideológico tão estrito, quando ele é uma figura fundamental do teatro e da cultura do nosso tempo", declara.

Pelo facto de ser uma obra com um cunho político fortíssimo e com características narrativas especiais, "a sua encenação torna-se um desafio complexo", explica Benite, que apresenta uma dramaturgia próxima da original.

A acção decorre na Rússia nos alvores do século XX até à revolução bolchevique de 1917. O cenário recria essa época, com a projecção de imagens numa grande tela que serve de horizonte visual para o público e com um muro móvel que serve para dividir as cenas. Este muro, um elemento bastante simbólico na história política da Europa, é aqui usado também "como uma evocação da meia-cortina usada por Brecht", explica ainda o encenador.

"O que me interessa não é a criação de artifícios cénicos elaborados, mas sim dar o conhecer o texto de Brecht, deixar que sejam as palavras a criar imagens na mente do espectador", afirma.

Além das palavras, a música é outro elemento fundamental do teatro épico desenvolvido pelo dramaturgo. Joaquim Benite optou por traduzir directamente as canções originais de Hanns Eisler, que surgem aqui acompanhadas por um conjunto de trompete, acordeão e percussão.

O despojamento cénico permite que a figura de Pelagea Vlassova/Teresa Gafeira ganhem, para Joaquim Benite, "uma dimensão tragicómica". Esta mãe não é só o corpo que prepara simbolicamente a revolução ela é também uma mulher "numa relação dialéctica com o mundo, aprende a revolução mas também aprende com a morte do filho". É esta relação dialéctica das personagens com a história que Vlassova personifica, mostrando como o teatro de Brecht "é muito mais do que teatro comunista, é um teatro dificilmente classificável", diz .

Na sala de ensaios será apresentado, aos sábados, o espectáculo 'Canções de Brecht', com Teresa Gafeira, o tenor Luís Madureira e os pianistas Jeff Cohen ou Francisco Sassetti.