terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Agora, o vedetismo é criado pela TV"

in JN 29/12/09

Júlio Cardoso cumpre 50 anos de uma carreira dedicada ao teatro, mas com incursões frequentes por cinema e televisão.

Hoje, estreia no Teatro do Campo Alegre, no Porto, "Eu sou a minha própria mulher", monólogo em que interpreta 30 personagens.

Assume-se como um privilegiado por continuar, ao cabo de 50 anos, a exercer com a paixão e o desassossego de sempre a representação. Esperançado por natureza, Júlio Cardoso, de 71 anos, acredita que as actuais dificuldades não são uma fatalidade e aponta a aprendizagem permanente como segredo da longevidade. "Ai do actor que julga saber tudo!", desabafa. "Eu sou a minha própria mulher", com encenação de João Mota, está em cena hoje e amanhã, às 21.45 horas, no Teatro do Campo Alegre, no Porto. O espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira regressa a 7 de Janeiro e prolonga-se até 15 de Fevereiro.

Acreditava ser possível chegar aos 50 anos de carreira tão activo?

Esses anos são o testemunho de uma história não só local como também nacional e universal. Cada vez mais, um actor tem que saber observar e pensar, porque o ser humano vive a uma velocidade tal que pensa apenas em sobreviver e pouco medita nas suas reais capacidades.

Como deve o actor adaptar-se a essa mudança de paradigmas?


Não é fácil. No meu caso, passei, na juventude, por muitas escolas e movimentos com o objectivo de encontrar respostas. Agora, sei que o teatro é fruto de saberes complexos. Não é uma comunicação de massas ou algo abstracto, mas uma arte viva e directa.

O que procura quem vai ao teatro?

O teatro faz parte da própria natureza humana. Há quem venha porque pretende aprofundar o pensamento e interrogar-se sobre o que o cerca, mas a maioria fá-lo por necessidade, obedecendo a razões inconscientes.

Há cada vez mais candidatos a actores. O que há alguns anos era uma vocação não é hoje mais uma carreira?

A "morangada" levou muitos adolescentes a quererem ser actores. É claro que muitos deles acabam por seguir outras vias, ao compreenderem que o teatro não é o que julgavam ser. O que deve caracterizar um actor é o desassossego permanente. Quanto mais evoluímos, mais inquietos ficamos, porque temos ambição de ir sempre mais além. Essa é a grande tragédia do actor contemporâneo.

Apesar do aumento de oportunidades, não haverá mais precariedade?

Agora, o vedetismo é criado pela televisão. Vemos actores de 35ª categoria, presenças assíduas na imprensa cor de rosa, a encherem salas...

É uma lógica muito injusta para os jovens com valor, concorda?

É terrível. Mas acredito que é possível estabelecer compromissos. Veja-se o António Fagundes, que cola milhões de pessoas em frente ao ecrã, mas que, sempre que pode, leva Shakespeare ao Brasil mais profundo.

Por muito importante que seja a formação, crê que a tarimba do palco é insubstituível?

Claro. Há uns anos, não existiam escolas como agora, mas havia mestres. Enquanto hoje os jovens dizem que se formaram no Conservatório, dantes, bastava-nos dizer que passámos pelas mãos de um grande encenador, porque isso era sinónimo de qualidade.

Lamenta que figuras como António Pedro, cujo centenário do nascimento foi assinalado há poucas semanas, estejam hoje quase esquecidas?

O problema do António Pedro foi ter criado muitos mais inimigos do que admiradores. Como estava muito acima da média, sofria com o ódio dos outros. A inveja só nos torna mais pequenos.

Por que escolheu o texto "Eu sou a minha própria mulher" para assinalar os 50 anos de carreira?

Durante muito tempo, acalentei a esperança de levar por diante um projecto do Ulisses Cruz para representar o "Rei Lear". Abortada que foi, pelo menos para já, essa ideia, surgiu a hipótese de apresentar esta peça e fui logo cativado por ela, já que se trata de um desafio grande. É um monólogo no qual vou interpretar perto de 30 personagens. Depois do Teatro do Campo Alegre, vou apresentar o espectáculo um pouco por todo o país.

Com tanta actividade, defende que um verdadeiro actor não se reforma?


É preciso saber gerir uma carreira. Estar sempre no apogeu também cansa e, por esse motivo, temos que saber escolher as alturas certas para abraçarmos determinados projectos. Orgulho-me de ter sabido dizer "não" nas alturas certas.

Nesse tempo todo, as alegrias foram superiores às tristezas?


Sem dúvida! Uma das principais lições que aprendi com os mestres foi a de entregar-me ao máximo, quer esteja a actuar para 500 pessoas ou para uma. Esse único espectador pode ter feito muitos quilómetros para nos ver e merece o máximo respeito.

E mantém a capacidade de sonho?

Posso morrer hoje, mas não deixo de ser um dos maiores milionários de sonhos do país.

Ao fim de tantos anos, o palco já não deve ter grandes segredos para si.

Há sempre segredos. O desassossego de um actor é provocado pelo desejo de fazer cada vez mais e melhor. Ai do actor que julga saber tudo!

A ida para Lisboa afigura-se cada vez mais indispensável para um actor que hoje queira singrar no meio?

É verdade, mas uma cidade como o Porto deveria ter orgulho em ter duas escolas superiores de teatro. O que vemos, contudo, é uma região a definhar a vários níveis. Acredito que o país só vai melhorar quando a região Norte, e o Porto em particular, voltar a registar índices de crescimento elevados.

O seu percurso prova que não é forçoso sair do Porto para construir uma carreira.

Não sou só eu, felizmente. O Porto, já dizia o Garrett, é uma cidade madrasta para os seus artistas. Quando o Manoel de Oliveira é obrigado a produzir os seus filmes em Lisboa, está tudo dito. Do Porto têm saído propostas fantásticas, mas só atingem esse estatuto depois de chegarem à capital do império.

O Porto está condenado a ser um alfobre?

Estou esperançado que, com a regionalização, haja uma inversão do actual estado de coisas.