in JN 28/11/09
Gomes de Pinho, presidente da Fundação de Serralves, aposta em esbater divisão entre cultura e negócios
Diminuir o orçamento e manter os níveis de eficiência pode parecer uma impossibilidade, mas é precisamente essa aparente quadratura do círculo que a Fundação de Serralves, no Porto, assegura ter alcançado nos últimos cinco anos.
O orçamento é similar ao de 2004, mas não só o número de actividades tem crescido ano após ano, como a descentralização de iniciativas é agora uma realidade incontornável.
As solicitações para intervir em realidades locais específicas, como museus municipais, não cessam de crescer e, pese embora a ausência de apoio suplementar do Estado, têm obrigado mesmo a instituição a um reforço de quadros nessa área.
"Até há uns anos, éramos vistos sobretudo como um museu de arte contemporânea. Sempre achei isso muito redutor. Temos, sim, que ser contemporâneos na visão da realidade. Se nos acantonarmos na perspectiva museológica, acontece-nos o mesmo que a outros museus de arte contemporânea do início do século XX, cujas obras mais recentes datam da década de 30...", sentencia Gomes de Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves.
Para o corrente ano, a instituição viu-se obrigada a sacrificar o orçamento em 10%. No entanto, ao contrário do que é habitual nas restruturações, a dispensa de trabalhadores não foi a medida eleita. A equipa liderada por Gomes de Pinho preferiu fazer cortes cirúrgicos na gestão, procurando não interferir com o normal funcionamento do museu.
O simples ajustamento do horário de abertura ao público - nos dias da semana entre Outubro e Março - permitiu uma poupança significativa em gastos relacionados com a segurança, energia e custos com o pessoal. Também o prolongamento das exposições por mais umas semanas possibilitou uma redução de custos.
"Sem nenhum impacto em termos sociais, economizámos imenso", enfatiza o administrador.
A contenção financeira não é uma realidade estranha para quem opera no segmento das artes, já que "a cultura em Portugal sempre teve pouco dinheiro".
Gomes de Pinho lamenta mesmo o estatuto de "parente pobre" associado à criação cultural, ou não se tratasse de um mecanismo complexo que envolve "muitos actores e está sujeito a um escrutínio muito exigente, ao contrário do que se pensa".
É, aliás, em períodos recessivos como o presente que o líder de Serralves entende justificar-se um apoio suplementar nesta área. No início do ano, apresentou mesmo um pacote de medidas culturais que, assegura, gerariam um retorno muito superior, como o apoio à reconversão de espaços fabris abandonados para instalação de núcleos de empresas criativas, condições especiais no crédito ou a criação de um passe cultural nacional que permitisse acesso a instituições artísticas portuguesas.
"Nunca defendi que a cultura fosse sinónimo de desperdício, até porque os gestores têm muito a aprender com a arte. Deve ser vista como investimento. Pelo preço de um quilómetro de auto-estrada, conseguir-se-ia impulsionar o sector das artes ", adianta.
A resposta pode não ter sido a desejada - " disseram-me que esse assunto era competência do Estado", recorda -, mas nem por isso as convicções sobre "os efeitos reprodutivos imediatos da cultura" sofreram um abalo.
Embora lamente "a fraca aposta de todos os partidos políticos, sem excepção, na cultura", o empresário, que agora divide o tempo entre o Porto e Lisboa, confessa ter ficado agradado com o célebre "mea culpa" de José Sócrates, primeiro-ministro, acerca do reduzido investimento nesta área durante a primeira legislatura.
Se as previsões não se confirmarem, Gomes de Pinho assume, sem complexos, um desejo: "Com um orçamento abaixo de um limiar mínimo, incapaz de assegurar o financiamento das suas instituições, não faz sentido existir o Ministério da Cultura".
A visão do responsável máximo da Fundação de Serralves baseia-se na certeza de que "muitas das delegações e competências do Ministério da Cultura podem ser transferidas com vantagens para as instituições".
A posição extremada sobre a extinção ministerial em nada interfere com a opinião positiva que merece a nova titular da pasta, Gabriela Canavilhas, em quem Gomes de Pinho detecta méritos como "a organização, a determinação e o empenho".
Mesmo com um investimento estatal aquém do desejável, há sinais encorajadores. Além da rede de equipamentos culturais que já cobre mesmo as zonas mais remotas, Gomes de Pinho diz que "Portugal atravessa uma pujança invejável em termos criativos" em áreas como a literatura, artes plásticas, cinema ou dança.
Essa dinâmica não poderia contrastar mais com o clima de suspeição que percorre o país, de que os recentes episódios das escutas foram apenas mais um exemplo. Crítico, o administrador não tem dúvidas de que "vivemos uma crise tão profunda de convicção de valores que já ninguém sabe o que é bom e o que é mau". Por isso, confessa que "a maior preocupação actual em relação ao país não é na economia mas no plano dos valores".
Às dificuldades que confessa sentir "em explicar aos parceiros estrangeiros a situação actual de Portugal" acrescente-se também "a inexistência de consenso nacional em relação a objectivos primordiais".
No meio das dúvidas e inquietações gerais, o empresário deposita confiança adicional na figura do actual presidente da República, Cavaco Silva, cuja "visão estratégica e intenção de congregar podem favorecer um clima mais são".
Para o Porto, Gomes de Pinho guarda palavras de alento. "O espírito empreendedor das gentes do norte" deve estender-se a todos os segmentos da sociedade, por forma a que os bons exemplos floresçam. "As melhores empresas do país são do Porto, mas representam ilhas", assume o presidente da Fundação de Serralves, que afirma ter a responsabilidade de trabalhar "entre os dois mundos" que ladeiam a vizinhança da instituição: a Foz e a Boavista, por um lado, e, a poucas centenas de metros, o Bairro da Pasteleira.
Gomes de Pinho, presidente da Fundação de Serralves, aposta em esbater divisão entre cultura e negócios
Diminuir o orçamento e manter os níveis de eficiência pode parecer uma impossibilidade, mas é precisamente essa aparente quadratura do círculo que a Fundação de Serralves, no Porto, assegura ter alcançado nos últimos cinco anos.
O orçamento é similar ao de 2004, mas não só o número de actividades tem crescido ano após ano, como a descentralização de iniciativas é agora uma realidade incontornável.
As solicitações para intervir em realidades locais específicas, como museus municipais, não cessam de crescer e, pese embora a ausência de apoio suplementar do Estado, têm obrigado mesmo a instituição a um reforço de quadros nessa área.
"Até há uns anos, éramos vistos sobretudo como um museu de arte contemporânea. Sempre achei isso muito redutor. Temos, sim, que ser contemporâneos na visão da realidade. Se nos acantonarmos na perspectiva museológica, acontece-nos o mesmo que a outros museus de arte contemporânea do início do século XX, cujas obras mais recentes datam da década de 30...", sentencia Gomes de Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves.
Para o corrente ano, a instituição viu-se obrigada a sacrificar o orçamento em 10%. No entanto, ao contrário do que é habitual nas restruturações, a dispensa de trabalhadores não foi a medida eleita. A equipa liderada por Gomes de Pinho preferiu fazer cortes cirúrgicos na gestão, procurando não interferir com o normal funcionamento do museu.
O simples ajustamento do horário de abertura ao público - nos dias da semana entre Outubro e Março - permitiu uma poupança significativa em gastos relacionados com a segurança, energia e custos com o pessoal. Também o prolongamento das exposições por mais umas semanas possibilitou uma redução de custos.
"Sem nenhum impacto em termos sociais, economizámos imenso", enfatiza o administrador.
A contenção financeira não é uma realidade estranha para quem opera no segmento das artes, já que "a cultura em Portugal sempre teve pouco dinheiro".
Gomes de Pinho lamenta mesmo o estatuto de "parente pobre" associado à criação cultural, ou não se tratasse de um mecanismo complexo que envolve "muitos actores e está sujeito a um escrutínio muito exigente, ao contrário do que se pensa".
É, aliás, em períodos recessivos como o presente que o líder de Serralves entende justificar-se um apoio suplementar nesta área. No início do ano, apresentou mesmo um pacote de medidas culturais que, assegura, gerariam um retorno muito superior, como o apoio à reconversão de espaços fabris abandonados para instalação de núcleos de empresas criativas, condições especiais no crédito ou a criação de um passe cultural nacional que permitisse acesso a instituições artísticas portuguesas.
"Nunca defendi que a cultura fosse sinónimo de desperdício, até porque os gestores têm muito a aprender com a arte. Deve ser vista como investimento. Pelo preço de um quilómetro de auto-estrada, conseguir-se-ia impulsionar o sector das artes ", adianta.
A resposta pode não ter sido a desejada - " disseram-me que esse assunto era competência do Estado", recorda -, mas nem por isso as convicções sobre "os efeitos reprodutivos imediatos da cultura" sofreram um abalo.
Embora lamente "a fraca aposta de todos os partidos políticos, sem excepção, na cultura", o empresário, que agora divide o tempo entre o Porto e Lisboa, confessa ter ficado agradado com o célebre "mea culpa" de José Sócrates, primeiro-ministro, acerca do reduzido investimento nesta área durante a primeira legislatura.
Se as previsões não se confirmarem, Gomes de Pinho assume, sem complexos, um desejo: "Com um orçamento abaixo de um limiar mínimo, incapaz de assegurar o financiamento das suas instituições, não faz sentido existir o Ministério da Cultura".
A visão do responsável máximo da Fundação de Serralves baseia-se na certeza de que "muitas das delegações e competências do Ministério da Cultura podem ser transferidas com vantagens para as instituições".
A posição extremada sobre a extinção ministerial em nada interfere com a opinião positiva que merece a nova titular da pasta, Gabriela Canavilhas, em quem Gomes de Pinho detecta méritos como "a organização, a determinação e o empenho".
Mesmo com um investimento estatal aquém do desejável, há sinais encorajadores. Além da rede de equipamentos culturais que já cobre mesmo as zonas mais remotas, Gomes de Pinho diz que "Portugal atravessa uma pujança invejável em termos criativos" em áreas como a literatura, artes plásticas, cinema ou dança.
Essa dinâmica não poderia contrastar mais com o clima de suspeição que percorre o país, de que os recentes episódios das escutas foram apenas mais um exemplo. Crítico, o administrador não tem dúvidas de que "vivemos uma crise tão profunda de convicção de valores que já ninguém sabe o que é bom e o que é mau". Por isso, confessa que "a maior preocupação actual em relação ao país não é na economia mas no plano dos valores".
Às dificuldades que confessa sentir "em explicar aos parceiros estrangeiros a situação actual de Portugal" acrescente-se também "a inexistência de consenso nacional em relação a objectivos primordiais".
No meio das dúvidas e inquietações gerais, o empresário deposita confiança adicional na figura do actual presidente da República, Cavaco Silva, cuja "visão estratégica e intenção de congregar podem favorecer um clima mais são".
Para o Porto, Gomes de Pinho guarda palavras de alento. "O espírito empreendedor das gentes do norte" deve estender-se a todos os segmentos da sociedade, por forma a que os bons exemplos floresçam. "As melhores empresas do país são do Porto, mas representam ilhas", assume o presidente da Fundação de Serralves, que afirma ter a responsabilidade de trabalhar "entre os dois mundos" que ladeiam a vizinhança da instituição: a Foz e a Boavista, por um lado, e, a poucas centenas de metros, o Bairro da Pasteleira.